TEMOS TODOS UM CORAÇÃO MISSIONÁRIO
UMA FUNDAMENTAÇÃO BÍBLICA-TEOLÓGICA DA IDENTIDADE MISSIONAL DA IGREJA
BLOG CORAÇÃO MISSIONÁRIO
Matheus Sena
9/4/202612 min read


A afirmação “temos todos um coração missionário” tem sido amplamente utilizada por nós, da Família Missionária Sena, como expressão daquilo que cremos e buscamos viver. No entanto, reconhecemos a necessidade de que essa declaração não permaneça apenas no campo da repetição ou da linguagem comum. Sem uma devida reflexão, até mesmo frases carregadas de verdade podem ser esvaziadas de significado, tornando-se apenas slogans, jargão religioso ou expressões recorrentes dentro do ambiente eclesiástico normalizadas, mas não necessariamente compreendidas em sua profundidade.
Diante disso, torna-se essencial estabelecer um fundamento bíblico-teológico sólido, que sustente essa afirmação não apenas como uma frase de identidade, mas como uma convicção enraizada nas Escrituras e evidenciada na prática cristã. A proposta deste artigo, portanto, é demonstrar que, à luz da Bíblia, essa declaração não apenas se sustenta, como também revela uma dimensão essencial da vida cristã: a inseparabilidade entre salvação e missão.
1. A UNIVERSALIDADE DOS REDIMIDOS NA ECONOMIA DA SALVAÇÃO
(TEMOS TODOS)
A expressão “temos todos” não deve ser entendida em termos antropológicos universais, mas soteriológicos. Refere-se àqueles que foram eficazmente alcançados pela obra redentora de Cristo. Segundo o testemunho bíblico, a humanidade, outrora alienada de Deus, foi reconciliada por meio do sangue de Cristo
“Mas agora, unidos com Cristo Jesus, vocês, que estavam longe de Deus, foram trazidos para perto dele pela morte de Cristo na cruz.” Efésios 2:13 NTLH
Essa reconciliação se manifesta na regeneração
“ele nos salvou porque teve compaixão de nós, e não porque nós tivéssemos feito alguma coisa boa. Ele nos salvou por meio do Espírito Santo, que nos lavou, fazendo com que nascêssemos de novo e dando-nos uma nova vida.” Tito 3:5 NTLH
na justificação
“Agora que fomos aceitos por Deus pela nossa fé nele, temos paz com ele por meio do nosso Senhor Jesus Cristo.” Romanos 5:1 NTLH
e no processo contínuo de santificação
“O que Deus quer de vocês é isto: que sejam completamente dedicados a ele e que fiquem livres da imoralidade.” 1Tessalonicenses 4:3 NTLH
A confissão de Jesus como Senhor implica uma transformação ontológica do ser
“Se você disser com a sua boca: “Jesus é Senhor” e no seu coração crer que Deus ressuscitou Jesus, você será salvo.” Romanos 10:9 NTLH
“Quem está unido com Cristo é uma nova pessoa; acabou-se o que era velho, e já chegou o que é novo. Tudo isso é feito por Deus, o qual, por meio de Cristo, nos transforma de inimigos em amigos dele. E Deus nos deu a tarefa de fazer com que os outros também sejam amigos dele.” 2Coríntios 5:17-18 NTLH
Tal transformação é descrita de maneira paradigmática em Ezequiel 36:26-27, onde Deus promete substituir o coração de pedra por um coração de carne, capacitando o Seu povo a viver em conformidade com a Sua vontade. Essa realidade estabelece uma nova identidade coletiva: um povo eleito para proclamar as virtudes de Deus (1 Pedro 2:9).
“Mas vocês são a raça escolhida, os sacerdotes do Rei, a nação completamente dedicada a Deus, o povo que pertence a ele. Vocês foram escolhidos para anunciar os atos poderosos de Deus, que os chamou da escuridão para a sua maravilhosa luz.” 1Pedro 2:9 NTLH
Nesse sentido, a missão não se configura como uma atividade opcional, mas como consequência intrínseca da salvação.
Como observa Francis Schaeffer:
“Todo verdadeiro cristão é um missionário, quer vá ou não para o campo.”
2. ANTROPOLOGIA BÍBLICA E A CENTRALIDADE DO CORAÇÃO
(UM CORAÇÃO)
O termo “coração”, na antropologia bíblica, transcende a noção meramente emocional, representando o centro integrador da pessoa humana. É nele que se articulam intelecto, afetos e volição.
Provérbios 4:23 NTLH (Nova Tradução na Linguagem de Hoje) estabelece o coração como fonte da vida,
"Tenha cuidado com o que você pensa, pois a sua vida é dirigida pelos seus pensamentos" na Nova Versão Internacional (NVI) diz: "Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida". Este versículo enfatiza a importância de proteger o interior, pensamentos, emoções e intenções, pois é de lá que procedem as ações e o rumo da vida.
Hebreus 4:12 revela sua profundidade ao discernir pensamentos e intenções. Assim, o coração constitui o núcleo da existência humana.
Pois a palavra de Deus é viva e poderosa e corta mais do que qualquer espada afiada dos dois lados. Ela vai até o lugar mais fundo da alma e do espírito, vai até o íntimo das pessoas e julga os desejos e pensamentos do coração delas. Hebreus 4:12 NTLH
A regeneração implica, portanto, não apenas uma mudança de status diante de Deus, mas uma reorientação interna do ser. O coração transformado passa a desejar aquilo que Deus deseja O Salmo 37:4 na Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) diz: "Que a sua felicidade esteja no Senhor! Ele lhe dará o que o seu coração deseja" na versão NVI (Nova Versão Internacional) diz: "Deleite-se no Senhor, e ele atenderá aos desejos do seu coração." Este versículo incentiva encontrar alegria e satisfação em Deus, prometendo que, ao fazer isso, Ele guiará e realizará os anseios mais profundos do seu coração, alinhados à vontade dEle, torna-se sensível à Sua voz.
Hebreus 3:15 na NTLH ("Se hoje vocês ouvirem a voz de Deus, não sejam teimosos como foram os seus antepassados") é um alerta urgente para obedecer a Deus imediatamente, sem adiar, o versículo avisa contra endurecer o coração tornar-se insensível devido à desobediência e ao engano do pecado e é continuamente conformado à Sua vontade.
Romanos 12:2 na Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) diz: "Não vivam como vivem as pessoas deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma completa mudança da mente de vocês. Assim vocês conhecerão a vontade de Deus, isto é, aquilo que é bom, perfeito e agradável a ele" somos instruídos a não seguir os padrões do mundo, mas sim a permitir uma renovação mental completa por Deus. Essa mudança de pensamento transforma o comportamento, permitindo compreender e viver a vontade de Deus, que é descrita como boa, perfeita e agradável, rejeitando a conformidade com o egoísmo atual, essa transformação interior possui implicações missiológicas diretas, uma vez que o alinhamento do coração com Deus implica também alinhamento com sua missão no mundo.
Nesse sentido, como afirma Ronaldo Lidório: “Missões não começam com os pés, mas com o coração.”
3. A IDENTIDADE MISSIONAL DA IGREJA À LUZ DA GRANDE COMISSÃO
(MISSIONÁRIO)
A dimensão missionária emerge como consequência lógica das duas anteriores. Aquele que foi reconciliado com Deus é, simultaneamente, incorporado ao ministério da reconciliação (2 Coríntios 5:18-20).
O texto de 2 Coríntios 5:18-20 na versão Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) diz o seguinte:
"¹⁸ Tudo isso é feito por Deus, o qual, por meio de Cristo, nos transformou de inimigos em seus amigos e nos deu a tarefa de fazer com que os outros também se tornem amigos dele. ¹⁹ A nossa mensagem é esta: Deus não leva em conta os pecados dos seres humanos e, por meio de Cristo, ele está transformando o mundo inteiro de inimigos em seus amigos. E ele nos deu a mensagem dessa transformação para a entregarmos a outros. ²⁰ Portanto, estamos aqui falando em nome de Cristo, como se o próprio Deus estivesse pedindo por meio de nós. Em nome de Cristo, nós pedimos a vocês que se tornem amigos de Deus."
A declaração de Jesus em João 20:21 — “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” estabelece um paralelismo missiológico fundamental: a igreja participa da própria missão de Cristo. Nesse contexto, o termo “missionário” não deve ser restrito a uma categoria vocacional específica, mas compreendido como uma identidade eclesiológica, todo crente é, por natureza, um enviado.
A identidade missionária da igreja encontra sua fundamentação mais explícita nas palavras de Jesus em Mateus 28:18-20, tradicionalmente conhecidas como a Grande Comissão, nesse texto, Cristo não apresenta uma sugestão, mas uma ordem direta, que define o propósito da igreja em sua existência histórica: fazer discípulos de todas as nações, anunciando o evangelho a toda criatura.
A missão, portanto, não pode ser compreendida como uma opção entre outras atividades eclesiásticas. Ela é constitutiva da própria natureza da igreja, a chamada “Grande Comissão” não é uma grande opção e jamais pode se tornar, por negligência, uma grande omissão.
Nesse sentido, há uma relação intrínseca entre salvação e missão. Se fomos alcançados pela graça, regenerados e recebemos um novo coração, esse coração, necessariamente, se orienta para a missão a transformação operada por Deus no interior do homem o insere no movimento redentor de Deus no mundo. A missão descrita em Mateus 28:18-20 apresenta fundamentos teológicos claros. Ela acontece:
No poder de Deus, que sustenta e capacita a ação missionária;
Na autoridade do Filho, que declara: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra”;
Na presença e direção contínua, expressa na promessa: “E eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”, o que implica a atuação permanente do Espírito Santo na condução da igreja.
Dessa forma, a missão não se origina na iniciativa humana, mas na própria natureza de Deus. Antes de ser uma tarefa da igreja, a missão é, essencialmente, missio Dei a missão de Deus. A igreja não cria a missão; ela é inserida nela.
Portanto, ser missionário não é uma categoria restrita a alguns, mas uma implicação direta da fé cristã autêntica, como expressa a conhecida afirmação de Charles Spurgeon: “Todo cristão é um missionário ou um impostor.”
Essa declaração, ainda que contundente, reforça uma verdade central: não há coerência entre experimentar a graça de Deus e permanecer indiferente àqueles que ainda não a conhecem. Assim, a identidade missionária da igreja não é uma construção funcional, mas uma expressão inevitável de sua natureza redimida. Aquele que foi reconciliado com Deus é, ao mesmo tempo, chamado a participar ativamente da proclamação dessa reconciliação ao mundo.
Como sintetiza John Stott e outros teólogos: “A igreja existe para a missão, assim como o fogo existe para queimar”
4. A LACUNA MISSIOLÓGICA CONTEMPORÂNEA E O DESAFIO DOS POVOS NÃO ALCANÇADOS
Apesar da clareza do mandato bíblico, a realidade contemporânea evidencia uma significativa lacuna missiológica. Dados reconhecidos por organizações como o Joshua Project indicam a existência de mais de 7 mil povos não alcançados, caracterizados por acesso mínimo ou inexistente ao evangelho. De forma complementar, a Wycliffe Bible Translators aponta que ainda há milhares de línguas sem tradução completa das Escrituras, o que limita significativamente o acesso à revelação bíblica em diversos contextos culturais.
Além disso, observa-se um descompasso entre prioridade teológica e prática eclesiástica: menos de 2% dos recursos missionários globais são direcionados a povos não alcançados. Tais dados evidenciam que a missão permanece inacabada e que a igreja ainda enfrenta o desafio de alinhar sua prática à centralidade da missão de Deus.
5. A MISSÃO CRISTÃ COMO VOCAÇÃO INTEGRAL: UMA RESPOSTA SIMULTÂNEA E INEGOCIÁVEL
A resposta à realidade missionária contemporânea exige mais do que consciência exige envolvimento integral.
Em Atos 1:8, Jesus estabelece uma estrutura missiológica ao afirmar que Seus discípulos seriam testemunhas em Jerusalém, Judeia, Samaria e até os confins da terra. Essa progressão deve ser compreendida tanto em termos geográficos quanto culturais:
Jerusalém — o contexto imediato
Judeia — a esfera regional
Samaria — contextos culturalmente distintos
Confins da terra — povos não alcançados e transculturais
Contudo, essa dinâmica não deve ser interpretada como sequencial ou seletiva, mas simultânea e abrangente, nesse sentido, torna-se necessário corrigir uma compreensão reducionista frequentemente presente no contexto eclesiástico: a ideia de que alguns “vão”, enquanto outros apenas “oram” ou “contribuem”. Embora essa linguagem seja comum, ela pode gerar uma distorção prática da missão, criando categorias que fragmentam aquilo que, biblicamente, é indivisível, a missão não se divide em responsabilidades exclusivas, mas se expressa em dimensões complementares que devem estar presentes na vida de todo cristão.
Todos são chamados a:
Interceder, alinhando-se espiritualmente ao propósito de Deus;
Contribuir, participando ativamente com seus recursos;
Envolver-se, assumindo responsabilidade prática na proclamação do evangelho;
Ir, tornando-se testemunhas intencionais em seu contexto.
A questão, portanto, não é se alguém vai, ora ou contribui, mas como cada cristão vive essas quatro dimensões de forma integrada, ainda que nem todos sejam chamados a atravessar fronteiras geográficas, todos são chamados a atravessar fronteiras pessoais, culturais e espirituais, se não somos enviados para o outro lado do mundo, certamente somos enviados para o outro lado da rua, assim, o campo missionário não se limita a regiões distantes, mas se estabelece em todo lugar onde há alguém que ainda não foi alcançado pelo evangelho, o mundo inteiro se torna o cenário da missão, e a vida cotidiana se transforma em plataforma missionária, dessa forma, não há espaço para omissão, a missão não pode ser terceirizada, nem reduzida a uma participação indireta, cada cristão é chamado a fazer da sua própria caminhada, sua rotina, seus relacionamentos, seus deslocamentos um ambiente intencional de testemunho.
Em outras palavras, é necessário fazer da própria rota um campo missionário.
Essa compreensão encontra eco na reflexão de Ronaldo Lidório:
“A vocação de Deus é pessoal, intransferível e incontestável. Pessoal, pois Ele chama pessoas e não coisas; gente e não instituições. E ao chamar, Deus lança no coração de seus filhos uma profunda convicção de propósito – a busca por estar no lugar certo, na hora certa e fazendo o que Ele deseja de nós a cada dia.”
Essa perspectiva reforça que a missão não é apenas uma tarefa institucional, mas uma resposta pessoal ao chamado de Deus. Nesse sentido, a atuação da nossa família na Amazônia peruana se insere como expressão concreta dessa vocação, em um contexto que demanda presença, proclamação e intencionalidade missionária. Assim, reafirma-se o compromisso: viver e anunciar o evangelho seja aqui ou além, a tempo e fora de tempo, até que todos os povos tenham a oportunidade de ouvir a voz de um coração missionário.
CONCLUSÃO
A afirmação “temos todos um coração missionário”, quando fundamentada nas escrituras, revela-se uma síntese consistente da identidade cristã. Aqueles que foram alcançados pela graça de Deus foram igualmente inseridos em sua missão no mundo, a regeneração do coração implica sua reorientação missional, e a reconciliação com Deus conduz, necessariamente, à proclamação dessa reconciliação.
Portanto, a missão não é um elemento acessório da fé cristã, mas sua expressão inevitável, um coração regenerado não permanece inerte, ele se move e se move em direção à missão de Deus entre todos os povos.
Sobre o autor do artigo
Matheus Sena é missionário atuando na Amazônia peruana ao lado de sua esposa, Débora Sena, e de seus filhos, Asaph e Abner. É formado em Missiologia pelo CTMQ, possui formação em Desenvolvimento Comunitário pelo CADI Brasil e em Empreendedorismo Social pela AGO Social. Também é capelão internacional pela Florida Leadership and Ministry University (FLMU).
Fundador e diretor geral da Missão ORE, além de ser cofundador e presidente da ADIEA — Associação de Desenvolvimento Integral Expandindo Amor. É autor do livro “Do Campo ao Campo: Despertando um Coração Missionário”.
Atualmente, desenvolve seu ministério na selva peruana, dedicando-se à plantação do CFMAP — Centro de Formación Misionera de la Amazonia Peruana, com foco na formação, mobilização e envio de missionários para contextos não alcançados da Amazô



Sobre a Família Missionária Sena
A Família Missionária Sena é uma família comprometida com a proclamação do evangelho entre povos e comunidades com pouco ou nenhum acesso à mensagem de Cristo, com atuação na Amazônia peruana. Seu trabalho está fundamentado na convicção de que a missão de Deus deve alcançar todas as etnias, culturas e povos, integrando evangelização, discipulado e formação missionária, por meio de ações locais e transculturais, busca contribuir para o cumprimento da Grande Comissão, mobilizando a igreja, formando obreiros e servindo comunidades. Seu propósito é viver de forma prática a verdade de que todo cristão foi alcançado para participar da missão de Deus no mundo.


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